Nutrição Esportiva

Nutrição Esportiva: Como ter segurança no cálculo dietético

Por onde começar?

O meio de pesquisa científica e atualização no campo da nutrição esportiva vem crescendo cada vez mais. Dentro somente do ano de 2017, foram 2.082 artigos publicados sob as palavras chaves ‘nutrição esportiva’.

Esses achados constantes podem, até de certa maneira, confundir o nutricionista na hora da sua prescrição dietética, havendo em vista tudo que deve ser levado em consideração, principalmente ao realizar um planejamento alimentar quantitativo.

Nutrição Esportiva

Cálculo dietético conforme objetivo, aumento calórico ou restrição calórica, fisiologia do exercício, prevalência de substrato energético, fator atividade a ser considerado, necessidade de solicitar exames ou não. Esses tantos pormenores e diretrizes podem interferir na segurança do nutricionista na hora do seu planejamento, caso ele não tenha ciência dos fatores primordiais a serem considerados.

O básico que funciona

Vamos começar pelo básico a ser descoberto: taxa metabólica basal. Sabemos hoje que o padrão ouro para sua determinação é a calorimetria indireta, essa por sua vez, possibilita a definição da quantidade de calorias gastas em repouso e dessas, quais são de carboidratos, proteínas e lipídios. Entretanto seu elevado custo inviabiliza que o teste seja adotado como protocolo na prática clínica.

Desta maneira, as fórmulas de predição de taxa metabólica basal, são as mais comumente usadas. Existem várias que disponibilizam o parâmetro de gasto energético em repouso, mas é importante ressaltar que se deve ter cuidado para não superestimar esses valores, uma vez que o cálculo por si só, pode não representar a real necessidade daquele indivíduo, mais uma vez reforçando a importância de se conhecer a história clínica do mesmo.

Existe um estudo realizado em 2015, que avaliou as fórmulas preditivas de taxa metabólica basal em indivíduos eutróficos e obesos. Os dados das equações foram comparados aos de calorimetria indireta. Foi indicado que para pessoas OBESAS, o cálculo de Mifflin-Sr Jeor – 1990, é o mais aconselhado, dado que os outros estudados superestimaram os resultados.

Como adequar uma equação para gasto calórico

No momento de estimar o gasto calórico do paciente, alguns pontos que devem levados em consideração, como por exemplo:

  • Idade;
  • Peso;
  • Altura;
  • Fator de Atividade Física;

Um posicionamento publicado em 2009, do Colégio Americano de Medicina do Esporte (ACSM) juntamente com a Associação do Nutricionistas dos EUA (ADA), aconselha uma equação voltada para atletas e praticantes de atividade física (DRI – Ingestão Dietética de Referência).nutrição esportivaMas deve-se ter muito cuidado ao avaliar pontualmente um dado, pois o cálculo pode induzir ao erro, visto que as próprias fórmulas já são superestimadas.

Cunningham propõe uma fórmula que retrata um valor mais baixo na estimativa de gasto calórico, considerando fatores a mais, como percentual de massa livre de gordura e fator atividade. Sua representação é dada pela equação abaixo:

Exemplo de Cálculo

Para um homem pesando 70kg com 21% de gordura corporal, sua Massa Livre de Gordura (MLG)* seria estimada em 55,3 kg e, com isso, seu GER (Gasto Energético em Repouso) seria de:

  • GER = 370 + 21,6 x (55,3)
  • GER = 370 + 1194,48
  • GER = 1564,48 Kcal

*A massa livre de gordura é o melhor preditor individual da taxa de metabolismo de repouso, sendo responsável por 73% da variabilidade, isso devido a percepção geral de que a diminuição da atividade física e a acumulação de gordura estão correlacionadas.

Após realizar o cálculo, acrescentar o Fato de Atividade (DRI), e nesse último, a intepretação deve ser adequada ao público que será atendido, uma vez que atletas e esportistas têm níveis de exercícios diferenciados.

Considerando o fator atividade proposto pela DRI, normalmente indica-se que os coeficientes de 1,0 a 1,59, normalmente são os parâmetros usados para esportistas, enquanto 1,6 a 2,5 geralmente representa os de atletas. No entanto a forma de adequação mais assertiva é aquela que condiz com o perfil e realidade do paciente.

Cálculo de Gasto Calórico pelo MET’s

Uma outra estimativa primordial é a quantidade de energia gasta com atividade física. O Compêndio de Atividades Físicas (CAF), proposto por Ainsworth et al. em 1993 atualizado em 2000, visou padronizar as estimativas de gasto calórico existentes na literatura englobando 605 atividades (cotidianas, lazer, laborais e desportistas em diferentes intensidades).

Muito embora esse estudo tenha sido base para muitas estimativas, ele possuiu um viés cultural, pois a mesma difusão não é observada em países da língua portuguesa, como o Brasil, o que pode ser explicado pela barreira linguística e a diferença de realidade.

Com objetivo de melhoria contínua e melhor adaptação para a realidade brasileira, o estudo especial: Apresentação de uma Versão em Português do Compêndio de Atividades Físicas: uma contribuição aos pesquisadores e profissionais em Fisiologia do Exercício, fez a identificação de expressões intraduzíveis, fazendo, quando necessário, pontes entre atividades atípicas à nossa cultura com situações mais comuns na realidade brasileira e validação transcultural da versão final da listagem.

Esse compêndio é o que temos de mais completo na classificação aproximada e listagem de atividades físicas na realidade brasileira. Lembrando que os dados foram estimados para indivíduos adultos e tratam-se sempre de valores médios e não exatos, visto que nem todos os indivíduos executam as atividades da mesma forma. Avigorando mais uma vez a importância de se conhecer a realidade do paciente.

A equação de MET’s (Equivalente Metabólico do Treino – cálculo que nos mostra a quantidade de caloria gasta em uma atividade física pelo tempo e peso), é encontrada através da fórmula abaixo:

nutrição esportiva mets

*Definido pelo equivalente da atividade exercida pelo paciente conforme tabela do compêndio na versão brasileira, mencionado acima.

Detalhes que fazem a diferença

O gasto energético induzido pelo alimento é um dado que muitas vezes não é considerado pelos nutricionistas no momento do cálculo energético, mas tem uma representação deveras importante.

Todos os macronutrientes possuem um processo de gasto de energia quando ingeridos, isso é chamado de Efeito Térmico dos Alimentos (ETA). Muitos fatores influenciam na sua estimativa, como o tamanho da refeição e sua composição, a palatabilidade do alimento, a hora da refeição, bem como a constituição genética do indivíduo (idade, forma física e sensibilidade à insulina).

 Um recente posicionamento da American College of Spots Medicine de 2016, retrata uma fórmula sobre a necessidade energética total, a qual há considerações sobre o efeito térmico dos alimentos, fator atividade e a taxa metabólica basal.

Para resolver essa equação primeiro é determinada a variável ETAF (efeito térmico de atividade física):

  • *GEP – Somatório do Gasto do Exercício Planejado (exercícios físicos).
  • *AFE – Atividades Físicas Espontâneas (como inquietação), (AFE).
  • *ATNE – Atividades Sem Exercício de Termogênese (trabalho, brincadeiras, jogos).

Em seguida é calculada a necessidade energética total:

Para cálculo do efeito térmico dos alimentos, deve-se considerar a proporção em porcentagem de macronutrientes, uma vez que refeições mais ricas em proteína têm um impacto maior sobre o coeficiente termogênico.

Por exemplo: Supondo um plano alimentar de 3500 Kcal distribuído por 50% de carboidratos, 30% de proteínas e 20% de lipídeos tem uma diminuição calórica referente ao efeito térmico de:

Ou seja, o carboidrato quando ingerido terá cerca de 6 a 8% do total de calorias destinadas para o corpo apenas para fazer a sua digestão. Percentuais diferentes se dão às proteínas (25 a 30%) e Lipídios (2 a 4%). O que para nosso exemplo acima teremos:

  • 1.750 Kcal de Carboidrato = 140 Kcal
  • 1.050 kcal de Proteínas= 315 Kcal
  • 700 Kcal de Lipídeos = 28 Kcal

Total: 483 Kcal gastas somente digestão desses macronutrientes nessa quantidade de calorias.

Com esse entendimento manter a quantidade de proteínas adequadas é sinônimo de um gasto metabólico maior.

Distribuição energética enquanto somatotipia

É notável que para otimizar um treinamento e também potencializar o desempenho, a nutrição torna-se um meio para se garantir que as necessidades de gasto de energia sejam supridas.             

Manter uma dieta deficiente em energia durante o treinamento muitas vezes, leva a uma série de problemas físicos (perda de massa magra, doença, redução da qualidade do sono, recuperação incompleta, flutuações hormonais, aumento da frequência cardíaca em repouso, etc.) e psicológicos (apatia para o treinamento, estresse elevado).

Existe uma diretriz que remete a uma distribuição energética conforme a somatotipia, tornando esse, um dado complementar para ser levado em consideração, havendo em vista as particularidades do indivíduo.

As vantagens do seu uso são a agilidade da sua prática e a otimização do tempo em consulta. Devendo-se ater que as características de somatotipo podem ser híbridas, então se avigora o cuidado na sua interpretação.

A Dieta Perfeita

Vimos até aqui, muitas variáveis a serem levadas em conta, de maneira prévia, a realização do cálculo dietético dentro nutrição esportiva. Ficando claro que a melhor conduta será aquela que se enquadrará na realidade do paciente e levará em consideração sua individualidade física, biológica e pregressa.

Ressalta-se também o cuidado ao se ater pontualmente a um cálculo estimado, pois se ele não for correspondente com as características mencionadas acima, pode induzir ao erro.

Sendo assim a dieta perfeita será aquela que caiba no bolso do paciente e que ele irá se dispor a seguir.

Referências

FARINATTI, P. T. V. Apresentação de uma Versão em Português do Compêndio de Atividades Físicas: uma contribuição aos pesquisadores e profissionais em Fisiologia do Exercício. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício. Volume 2, Rio de Janeiro, 2003. 

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SOUTHWARD, K. et al. The Role of Genetics in Moderating the Inter-Individual Differences in the Ergogenicity of Caffeine. Nutrients, 2018, 10, 1352. Disponível em doi:10.3390/nu10101352.

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