Parecer Técnico – Jejum Intermitente

Parecer técnico – jejum Intermitente

O primeiro estudo científico que avaliou a influência da restrição calórica na longevidade foi conduzido há quase 80 anos em ratos e mostraram que pode aumentar a expectativa de vida e proteger contra ou suprimir processos de doenças crônicas não transmissíveis.

Estudos mais atuais mostraram efeitos benéficos na pressão arterial, redução de peso e gordura corporal, Síndrome dos Ovários Micropolicísticos, artrite reumatoide, metabolismo da glicose, resistência de células cardíacas, musculares e cerebrais ao estresse e alteração favorável na microbiota intestinal.

Especula-se que, em mamíferos noturnos, restringir a alimentação noturna melhore os perfis metabólicos e reduz o risco de obesidade e condições relacionadas à patologia, como a doença hepática gordurosa não alcoólica e doenças crônicas, além de doenças como diabetes e câncer.

Os protocolos de jejum intermitente realizados em estudos em animais e humanos não possuem um único padrão estabelecido. Eles podem ser aplicados com restrição de tempo para o consumo das refeições e/ou redução do consumo energético do tipo intermitente.

Dentre os protocolos citados nos estudos destacam-se:

1) 20 a 24 horas de jejum ou restrição calórica severa (até 25% da NET), alternados com 24 a 28 horas de período de alimentação com consumo irrestrito (ad libitum);

2) Restrição calórica leve (20 a 30% da NET), alternada com restrição calórica severa (50% da NET);

3) Protocolo 5:2 –  cinco dias por semana de consumo  alimentar irrestrito, conforme NET ou 15% de restrição  calóricas e  dois dias sequentes ou intervalados de restrição severa (consumo de até 30% da NET);

4) Protocolo 6:1 – seis dias por semana com restrição calórica de 30% do VET  e 1 dia por semana com restrição severa (consumo de 10% a 25% da NET);

5) Jejum diário de 16 horas, com  janela alimentar de oito horas;

6) Restrição calórica de cinco dias por mês: cinco dias com dieta de 700 a 1100 kcal hipoproteica e 25 dias de consumo alimentar regular, no mínimo três ciclos, com duração total de três meses.

Em adultos saudáveis, de peso normal, com excesso de peso ou obesos, há pouca evidência de que os protocolos de jejum intermitente sejam prejudiciais à saúde, ao menos, em curto prazo.

Entretanto nos dois últimos anos, alguns estudos realizados em animais foram publicados, evidenciando possíveis intercorrências e efeitos adversos decorrentes da prática de jejum/restrição calórica intermitente. Entre estes, o aumento do estresse oxidativo, elevação de cortisol, imunossupressão, anovulação, redução da expectativa de vida (em ratos velhos), impactos profundos sobre o desenvolvimento fetal e placentário em gestantes, resistência à insulina, alteração de neurotransmissores associados com o aumento do apetite e distúrbios do comportamento alimentar. Esses estudos foram associados a jejuns realizados em longo prazo, podendo não se traduzir na resposta equivalente em humanos.

Na maioria dos estudos publicados, a orientação para o consumo alimentar nos dias ou horas permitidos era do tipo “ad libitum”, o que pode impossibilitar as adequações nutricionais individuais, culminando em longo prazo em deficiências nutricionais.

Adicionalmente, na pesquisa científica, ainda há inúmeras limitações para a prática do jejum intermitente, entre elas:

1) A maioria dos estudos foi realizado em ratos. Os estudos em humanos são heterogêneos com pequeno número de participantes e de curta duração (até seis meses).

2) O jejum de 20 a 24 horas em dias alternados parece resultar em perda de peso, bem como reduções nas concentrações de glicose e insulina. No entanto, esse padrão pode não ser prático, devido à fome intensa nos dias de jejum.

3)  A pesquisa até o momento não demonstrou que o jejum de dias alternados produze perda de peso superior, em comparação com planos de perda de peso com restrição calórica diária ou contínua.

4) Não há dados suficientes para determinar um protocolo ótimo de jejum, incluindo a duração do jejum, o número de dias de “jejum” por semana, o grau de restrição de energia necessária nos dias de jejum e as recomendações nutricionais em dias ou períodos de alimentação.

5) Quase a totalidade de estudos publicados em humanos carecem de follow-up. Dessa forma, não há certeza das respostas neuroendócrinas e metabólicas após o término de distintas intervenções de jejum ou restrição calórica intermitente.

6) Há limitação de dados científicos de alta qualidade para informar aderência, benefícios e danos da restrição calórica/jejum intermitente comparada com a restrição calórica contínua.

Um aspecto limitante a ser considerado é a adesão ao tratamento, levando em conta que poucas pessoas se adaptam a longos períodos de jejum devido aos efeitos colaterais agravados, conforme o protocolo de jejum escolhido.

Apesar do jejum/restrição calórica intermitente apresentar benefícios em humanos, esses aspectos supracitados colocam em dúvida a segurança da utilização de distintos protocolos de jejum/restrição calórica intermitente em longo prazo.

Mariane Meurer

NUTRICIONISTA – CRN 10.5317

Gabriela Dors Wilke Rocha

NUTRICIONISTA – CRN 10.4719

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